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"No Caminho Havia Uma Pedra"



- Tempos difíceis!

- Será mesmo?

- Claro! Ou tu és cego? Não vê o pessimismo estampado na cara dessa gente? A preocupação geral com desemprego, carestia, inflação e toda essa roubalheira?

- Calma... claro que eu sei que pra quem perdeu emprego e dinheiro não vai estar bom mesmo. Mas se tínhamos 5,7 milhões de desempregados há dois anos e agora temos 11 milhões, o que mudou equivale a mais ou menos 5% de perda de empregos. E tem gente perdendo 25, 30, 50% de vendas. Isso eu não entendo.

- É a falta de perspectiva, de segurança. As incertezas que geram depressão coletiva e com isso a redução sintomática do consumo.

- Caraca! Que bonito que você falou! Até parece economista...

- Você brinca porque está empregado. Até recebeu aumento.

- Não é aumento não. São prêmios e incentivos por metas que agora temos na empresa. Vendendo mais, ganhamos ainda mais. Tá funcionando.

- Como assim? Vocês não estão sentindo a crise não?

- Claro que sim! Mas fizemos um plano de contingência, uma projeção estratégica de cenários, planejamos novas metas, mais ambiciosas, nos empenhamos e estamos crescendo.

- Como vocês fizeram isso?

- Uma consultoria que nos assessora disse que se fizermos uma boa execução do ponto de venda, um bom atendimento de vendas e pós-vendas, um ajuste de portfólio compatível com o sortimento dos nossos clientes e consumidores, a modernização de nossas embalagens - aproveitando as mudanças da legislação, se organizarmos melhor nossas logísticas de vendas e de entrega, comprarmos melhor e vendermos melhor, reduzirmos nossos custos operacionais e aumentarmos nossa produtividade, teríamos maior competitividade e as vendas aumentariam, a rentabilidade melhoraria e passaríamos por esse período como se nada estivesse acontecendo. Compramos essa ideia, traçamos nossas metas, fizemos os treinamentos que eles aplicaram com determinação e colocamos nosso bloco na rua. Agora, é só dar show.

- Agora quem está falando que nem consultor é você.

- Achei que se quisesse mesmo fazer acontecer, teria que incorporar os conceitos, comprar minhas brigas internas sobre “mudanças”, arregaçar as mãos e ir à luta. Decisão tomada, meta cumprida! E sabe o que mais? Essa “depressão coletiva” que você falou é uma decisão pessoal e não coletiva. É se deixar arrastar pelo pessimismo e não reagir pra mudar o que não está indo bem. “Irmão, é preciso coragem!” Essa é a frase preferida dos consultores (rsrsrs).

- Pedra!

- Pedra?

- É ... tô lembrando do Carlos Drummond? “No caminho havia uma pedra...”

- Drumom? Pedra? Não entendi. O que isso tem a ver com o nosso papo?

- Drummond é um poeta. Melhor: era. Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista do século passado, que tem obras que atravessarão os tempos.

- Hummm!... Mas, e a “pedra”?

- É sobre um poema dele de 1928 chamado “No meio do caminho”. Uma reflexão que faz a gente rever sobre nosso modo de pensar e de agir. Diz assim:

“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”

- Hummm!... complicado!

- Nem tanto. Veja que todos nós passamos por dificuldades (e hoje tudo parece ainda mais complicado) e Drummond retrata isso de forma repetitiva no seu poema, onde a figura da “pedra” representa esses problemas e fatos marcantes de nossas vidas. Claro que uma “pedra” no caminho atrapalha e que essas dificuldades muitas vezes nos marcam profundamente como “noites sem estrelas”. 

- Ainda não entendi.

- Eu me lembrei desse poema porque vocês fizeram o que eu sempre prego nas palestras motivacionais. Eu faço uma pergunta simples e quase ninguém sabe o que responder: “UMA PEDRA NO CAMINHO OU UM CAMINHO DE PEDRAS?”. Aí, explico sobre o poema e entro com a argumentação de que as “pedras” existem e sempre existirão – fato! Todos temos problemas – ato. O que fazemos delas e com elas é que impacta em cada um de nós. Uns passarão a vida reclamando das “pedras” e de quem os “apedreja”. Outros farão um “caminho de pedras”, apoiando-se nessas experiências e solidificando um novo caminho, gratos mesmo por suas “pedras”.

- Hummm!... Muito interessante isso. Agora é papo de poeta-filósofo! Então você acha que lá na empresa nós pegamos as “pedras” do caminho e transformamos num “caminho de pedras”? Hummm!... Não tinha pensado assim, mas faz sentido.

- Mas, como você disse, “Irmão, é preciso coragem”. Rsrsrs

- É. Tem mesmo que ter coragem. No começo, não foi nada fácil, porque aceitar que depois de mais de 10, 20, 30 anos de “fazer a coisa da mesma forma”, existem maneiras de ser e de agir muito melhores, pra se “fazer a coisa acontecer”. Não é nada fácil. Eu mesmo não me convenci de pronto. Foi preciso que eles provassem que era possível e que pra mudar e ainda ser melhor. E aí, como você disse, incorporei os conceitos, desenvolvi as habilidades e parti pra cima.

- É o CHA. Nessa hora, o D.A.V.I. toma um Diagrama de CHA e vai à luta contra Golias. 

- Já li essa estória. Ensina sobre coragem e fé. Muito legal. Mas, chá? Tomar diagrama de chá???

- Eu explico. Esse Davi não é o mesmo D-A-V-I que eu estou te falando. Trata-se de um neologismo, um conceito, que li no livro do Vital Sousa “Empreendimento Sem Fim - Diário de Um Louco”, onde muitos dos conceitos, que você já incorporou, são apresentados de forma estruturada e lógica. Mas o mais legal é ver esses conceitos aplicados na prática. Uma demonstração de fé naquilo que se acredita e que se “vende” para os outros como verdade. Olha. Vale a pena ler. Acho que você já está preparado para entender um dos principais fundamentos do livro: O Diagrama do CHA.

- Diagrama do Chá? Não seria receita?

- Não. É Diagrama mesmo. Mas esse assunto vai ter que ficar pra uma próxima prosa.

-Hummm! Qual é o nome do livro mesmo? 



Mauro Ramos 
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