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Prólogo Para Um Louco


“A perplexidade é o início do conhecimento”. [Khalil Gibran]


Eu poderia afirmar que minha narrativa tem início aos dez anos de idade, lá pelos idos de 1.969, em plena Ditadura Militar, quando comecei, pelo que me lembro, a ser chamado de louco. Porque falava sozinho ou conversava comigo mesmo em voz alta; por colecionar citações de grandes pensadores; por substituir as brincadeiras de criança pela leitura voraz de tudo que conseguia pôr as mãos; por desmontar tudo que chegasse às minhas mãos para ver como funcionava; por minhas ideias “revolucionárias” para interferir ou tomar a frente dos negócios do meu pai; pelos incontáveis sonhos de aventuras pelos mundos das minhas leituras...

Dessas leituras, destaco uma biografia de Salvador Dali e o livro O Tambor, de Günter Graas. Além da extensa lista de comportamentos estranhos, meus comentários acerca desses dois livros eram suficientes para confirmar minha fama de criança estranha, para os condescendentes, e louco para a grande maioria das pessoas que me conheciam de perto. Em minha defesa, para que o leitor não abandone o livro na apresentação do autor, lanço mão de uma citação:

“É preciso provocar, sistematicamente, confusão. Isso promove a criatividade. Tudo aquilo que é contraditório gera vida”. [Salvador Dali]

Mas a proposta deste livro não é ser uma autobiografia, então, retomemos a narrativa, com um salto de algumas décadas, para o ponto onde pretendo despertar a atenção de todos para a mais recente das minhas loucuras: o Rally M+is – Transamazônica e para o real objetivo deste livro: um Diário de um Louco com pretensões de Manual de Empreendedorismo.

Mas antes, vamos entender como tudo realmente começa: a minha visão da gênesis de um projeto de vida, uma história que quero transformar em epitáfio.

No início era o pensamento: lógico, coerente, concreto. O pensamento se fez palavra, mas a palavra era pouco para traduzir o pensamento. O pensamento era, por si só, plural, sistêmico, lógico, coerente, concreto. Assim, a palavra se fez atitude: criativa, revolucionária, engajada, sustentável, mas a atitude, ainda, era pouco; o pensamento agora era lógico, coerente, concreto, plural, sistêmico, criativo, revolucionário, engajado, sustentável, mas, ainda, era só pensamento. Assim, a atitude se fez ação. Traduziu-se em fatos e dados históricos, transformou-se em atividades e processos e finalmente o pensamento tirou o tempo de sua inércia.

A cada fração de tempo, milhares de percepções sensoriais – tudo o que vemos, ouvimos e sentimos – tornam-se conscientes, transformando-se em pensamentos e iniciando o processo de formação de emoções e sentimentos acerca dessas percepções, que serão convertidas, em última instância em atitudes, pois naturalmente, tendemos a reagir. Um ciclo único, inconfundível, baseado no mapa mental de cada um de nós, formado a partir das experiências que formam nosso caráter, nosso comportamento. Se pudéssemos ouvir nossos pensamentos, ouviríamos uma verdadeira tempestade de ideias. Alguns conseguem conviver com esse “barulho” na cabeça – ou quem sabe, sequer tomam consciência dele - outros precisam externá-lo em forma de ação.

Na cabeça de um empreendedor – falo por mim e por todos os empreendedores que tive o prazer de conhecer suas histórias, contadas por eles mesmos – pensar não é só pensar: pensar é o exercício ininterrupto de sua personalidade; sua inquietude; sua vontade de transformar-se transformando o mundo que o cerca. Como diria a personagem Tuda, do conto Gertrudes pede um conselho de Clarice Lispector:

- “Doutor, vim perguntar o que faço de mim. Quero saber como mostrar ao mundo que sou uma alguém, uma extraordinária.”

Nenhum médico, monstro ou louco teria coragem para responder, a um empreendedor entusiasmado com um projeto, o que respondeu o nobre Doutor do conto:

- “Não se preocupe. Não é preciso fazer nada. Isso passa.”

Não consultei nenhum médico para tratar minha loucura, mas muitos me disseram que todo esse entusiasmo passaria que eu recobraria o juízo e voltaria a sentar numa mesa de escritório para meu expediente “normal”. Nenhum monstro – os obstáculos que há em nós e à nossa volta – conseguiu deter meu ímpeto de transformar meus pensamentos em ações. O louco da história sou eu mesmo e jamais desistiria de uma ideia viável.

Para mim não passou, não passa. Por isso, só por isso, transformo meus pensamentos em ações; por isso empreendo; por isso estou aqui – com o pensamento transformado em ação, fatos e dados – para contar minha história: calar a voz que tagarela em minha cabeça...

- Vem Tuda, vamos viajar!


[Sousa, Vital. Empreendimento Sem Fim. Recife, 2015]

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